sábado, 25 de fevereiro de 2012

Gangorra


Isso
de não saber ser rio
(só saber ser fonte
ou um vasto mar),
eu bem sei que, cedo ou tarde,
ainda há de me matar...

Isso
de não saber ser safra
(só saber ser seca
ou inundação)
torna certo que irá morrer
de fome o meu coração.

Franqueza


Longe de mim, ser santo.
E só coisas boas
- da minha parte -
não lhe garanto.

Mas tento, exaustivamente,
não ser falso...
e com ninguém eu faço
o que o gato, hipocritamente,
faz ao rato.

Sempre fui assim:
Ou eu brinco
ou eu mato.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Mercador, não me apareça...

Dor,
que eu gasto,
gasto
e nunca acaba...

Poço sem fundo
de água amarga.

Mercador, não me apareça...
Que eu vendo a dor e a alma!

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Pra onde vai a chuva


Chove na terra,
e os pingos longos da chuva fresca
regam as flores da primavera.

(Com águas rosadas)

Chove no mundo,
e os pingos grossos da chuva rala
molham as costas de um vagabundo.

(Com águas amarelas)

Chove no morro,
e os pingos fortes sobre os barrancos
fazem um pobre pedir socorro.

(São águas castanhas)

Chove na vida,
e gotas tristes de um pranto amargo
correm dos olhos da dona Guida.

(Que águas cinzentas...)

Mas, tudo o que sei
é que chove e chove.
E não importa a cor da água,
é pro chão que ela se move...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Ora...


Ora,
Se o mundo é mesmo esse ovo podre,
A culpa é sua
E também minha...

Não façamos a sacanagem
De pôr culpa na galinha!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Versos tristes de outubro


i
A quem pergunte se casei,
Se procriei,
Se evaporei,
Se virei pó...
Responda apenas que vou só.

A alma livre. O peito nu.

Mais só que o sol
No céu azul.

ii


De
Mim
Fá, Sol, Lá, Si...
Se me pego assim tão só.

Sem canção,
Sem sol,
Lá, Si.
Lá se vai meu arrebol...

iii

Cada um sofre de um lado
Pela mesma dor, calado.
Cada um sofre de um jeito
Pela mesma dor...
No peito.

iv

Meu coração propõe ao teu
(Que viaja o ano inteiro),
Desfazer todas as malas
E ter-me por paradeiro.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Laurel ao visionário torto



Às tuas sandices –
outrora mal vistas
por velhas beatas
e membros do clero
– eu presto homenagem,
com todo o respeito
e com todo o zelo
do meu coração.

E as tuas gírias –
outrora só ditas
por loucos andejos
e vis vagabundos
– agora eu insisto
que sejam revistas.
Serão incluídas
no meu dicionário.

Teus atos insanos –
outrora coibidos
qual fossem maus modos
e temeridades
– já todos me inspiram
em seus pormenores
e elevo-os ao pódio
de gestos heroicos.