quinta-feira, 19 de julho de 2012

Canção dos companheiros

Para que durmas tranquilo
(tal qual observo agora),
eu te tomo os pesadelos
noite adentro e noite afora.

Não por virtuosa bondade,
favor desinteressado,
mas audaz expectativa
de que estejas ao meu lado.

Caso te faça contente,
não sou de todo egoísta.
Convém não mirar as coisas
por ângulos tão simplistas.

Noite adentro e noite afora,
terás um sono tranquilo.
E eu combatendo teus medos
e inimigos (em sigilo).

Chá comigo


Dois pires.
Sobre cada pires,
uma xícara.
Três-quartos de chá em cada xícara.

Tudo sobre uma mesa.

E eu
(sobre a cadeira)
sem qualquer traço de leveza.

Lonjuras

Ah,
lonjuras do horizonte noturno,
que distâncias tão sonhadas
embriagam o meu espírito.

Que terrível não ter asas!

Ah,
lonjuras do horizonte noturno,
vertigem das madrugadas,
contemplo-vos pensativo:

Que terrível não ter asas!

terça-feira, 22 de maio de 2012

retro excesso


Ventos que soprais nos morros,
penteando forragens
e varrendo pétalas...
Quando fordes, levai convosco
meu bucolismo fora de época.

Sonhei


Sonhei que voava alto
entre brumas de esquecimento.
Acordei, e a cabeça tola
tinha as mesmas lembranças dentro...

domingo, 8 de abril de 2012

Poemas noturnos de despedida

I

Não que não doa o meu coração...
Dói!
Mas acostumou-se às partidas.

Não que não sangre, não sofra, não ame...
Ama!
Mas habituou-se às despedidas.

Ouvirá o teu adeus
Com a calma típica de quem há muito aguarda...
E não protestará!

Os dias tornar-se-ão longos e pesarosos
E as noites serão frias e deprimentes.
Mas, o meu coração
(com a calma típica de quem há muito aguarda)
Não protestará!

Dirás, então:
"Que frio, que frígido o teu coração!
Não sangra, não sofre, não ama!
Não tem feridas!"

Direi:
"Ama!
Mas habituou-se às despedidas..."


II

Se queres, vai...
Pois não ostento o que não tenho
E não agarro o que me escapa!

Se queres, fica...
Mas pousa livre no meu ombro,
Sem coleira e sem anilha.

domingo, 1 de abril de 2012

Das dores do pranto

Quem chora
Quer quem afague,
Quem abrace sem alarde...

Alguém sem pressa de ir embora,
Alguém que fique toda a tarde.

Quem chora tem um espaço
(vazio),
Um papel sem traço.
Tem três crianças doentes,
Famintas, de pés descalços.

Quem chora
Quer quem lhe diga:
- Vai que a tua dor fica...
Quer um ombro, um peito, um colo;
Quer um prato e uma marmita.

Quem chora
Quer, sem alarde,
Quem abrace e quem afague.
Quem chora
Quer um milagre!